sexta-feira, 26 de outubro de 2012

(Louco) Por você.

No início da noite eu recebi um chamado. Uma das minhas melhoras amigas, se não a melhor, estava com uma dor estranha ao telefone. Em princípio tomou um Buscopan, depois outro e nada. Nunca teve cólicas tão fortes e nem está naqueles períodos. Talvez não fosse cólica, por isso me ligou. Algumas quadras depois eu estava lá, a ajudando a se vestir e tentando não espiar suas nuances femininas, procurando cartões de convênios médicos, dando algumas informações enquanto ela se curvava de dor. Fomos a um pronto-atendimento ambulatorial, o mais perto entre os cadastrados. Pegamos fila. Fomos atendidos por um clínico geral, depois encaminhados, e toda aquela burocracia. Ela chorava apavorada de dor e de medo, como uma pequena menina. Eu dava um pequeno show de ira no guichê.

Já era madrugada. Exame de sangue, exame disso e daquilo, o de urina demorou um pouco pois os rins estavam fracos, segundo um dos doutores do plantão. “Não queria que você tivesse me visto vomitando”, ela me disse, mas aí eu a acalmei dizendo que não tinha planos melhores para essa noite. Ela riu fraquinho e deu um longo suspiro. E lá fomos nós para tipo um computadorcom um mouse que mais parecia um tubo de desodorante roll-on. A enfermeira pediu que eu saísse, a paciente nervosamente exigiu que eu ficasse. Podia ser gravidez, podia ser hérnia, podia ser apendicite. Quando a mulher de branco passou um gel frio, a garota encolheu a barriga, arrepiou os braços e segurou forte minha mão. Foi estranho.

Eram três quando acordei no susto, as pernas em cima de outro banco da sala de espera. Fui num daqueles cubos onde você deposita uma moeda e ele automaticamente te faz um café adoçado e quentinho. Na outra mandei descer um Snickers, o super-herói dos chocolates. Quando um residente passou, eu o agarrei pela nuca, quase. Ele disse que ela estava bem, em observação, descansando sob efeito de um opiáceo. Eu podia ficar tranquilo porque “sua namorada vai ficar legal e daqui a pouco será liberada pra ir casa”. O rapazinho confundiu as coisas e eu me apressei em desmentir aquele boato, antes que o hospital todo ficasse sabendo. Ela podia ouvir isso nos corredores ou de alguém no leito oposto, e isso ia dar em desentendimentos futuros. Ele deu de ombros e entrou numa porta restrita.

Antes de ser liberada, tivemos de passar numa sala para pegar umas receitas para uns remédios. A médica, uma loira elegante e alta, disse que se a dor voltasse “precisaríamos” (ei, ninguém avisou você que não somos um casal? Que tipo de hospital é esse que fica tentando implantar ideias inviáveis nos seus pacientes?) voltar amanhã cedo para uma tomografia. Nós prometemos que estaríamos aqui nesse caso. Sim, eu também. Com algumas ligações, eu desmancharia qualquer reunião chata. E pela porta da frente saímos bem devagarinho, carregando uns papeis, a passos grogues, cuidando os degraus, até o estacionamento.

Então ficou decidido que eu passaria o resto da noite lá, fazendo alguns monitoramentos maternais, vendo se uma febre se atravessaria, pois aí a doutora disse que poderia ser uma infecção. Não tinha febre, ela estava bobinha e risonha de Tramal, me contando que nunca sentiu tanto medo na vida, enquanto eu tentava me concentrar no diálogo de Mad About You – que há épocas eu não via, porque nunca ligava a tevê àquela hora da manhãzinha. Jamie não queria ter um filho mas achava que o Paul queria, mas o Paul também não queria, mas achava que Jamie queria, então os dois decidiram ir pra cama e fazer o bebê a contragosto sem saberem. Foi uma confusão bem engraçada.

– Por que eu?
– Hein? – ela resmunga, meio sonâmbula e debilitada.
– Por que você não ligou para seus pais ou uma amiga?

Aí ela olha pra tevê, a respiração lenta e baixinha. Agora Paul e Jamie estão discutindo porque nenhum dos dois quer o tal filho e agora eles já transaram sem proteção e tudo. “Por que você não disse antes?”, grita um deles.

– Não sei – ela me responde. – Eu te atrapalhei, não é?
– Não! Não, não. Não é isso. Fiz o que fazem os amigos. E, você sabe, eu adoro estar contigo. Em pubs, em parques, em hospitais municipais, tanto faz. É só que...
– Sei lá. Nem pensei direito. Você foi a primeira que me veio à cabeça. Isso é ruim?
– Não. Acho que não.
– Talvez eu procurasse em alguém que pudesse me passar confiança e que soubesse me confortar também, sem ficar mais histérico e apavorado do que eu – me diz docemente e aí adormece aconchegada em mim.

Como eu não tomei nenhum analgésico nas artérias, demoro um pouco mais a cair no sono, e posso ver que agora Paul descobre que na verdade queria ter o tal do filho, mas fica quieto e receoso porque a Jamie disse que não desejava, só que secretamente ela também quer e resolve ficar na dela. Eu não sei onde isso vai dar, vou ter de esperar pelo próximo episódio, enquanto mais um sol se levanta. Essas confusões sempre acontecem.

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