domingo, 29 de setembro de 2013

O que você não sabe.



Quando na oitava série, num período confuso que é a adolescência, eu estudava num colégio de freiras e tinha um melhor-amigo chamado Felipe. Mas essa não é a história toda.

Felipe era alto, louro, de olhos azuis e corpo atlético. Levava muitas menininhas para baixo da escada que dava pra sala audiovisual. Jogava bem futebol, xadrez, videogame, qualquer coisa. Sabe aquelas pessoas que são boas em tudo? E eu era apenas uma versão virgem e distorcida do que mais ou menos sou hoje: sombrio, feio, melancólico, esquisito e me recordo de, na época, querer ser como Rimbaud. Eu ia com meu caderninho de anotações poéticas a todos os lugares da escola, do banheiro ao ginásio de educação física. Não demorou muito para todas as turmas da tarde e algumas da manhã espalharem a conclusão de eu era, como dizem, bicha.

Difícil saber por que Felipe e eu, mesmo tão diferentes, éramos amigos do peito. Um belo e um feio, um pop e um esquisitão. Suponho a razão seja porque ambos estávamos repetindo a série e o resto da turma parecia todos uns pirralhos idiotas; mas é difícil entender as afinidades entre duas pessoas, onde exatamente elas se engancham.

Um dia, sem mais nem menos, Felipe chegou pra mim e disse que era melhor nos afastarmos, de turma, de classe, de turno. A minha imagem estava pegando nele, e isso era uma coisa ruim. Todos estavam achando que ele não gostava de meninas, e que ele só pegava várias para calar a boca da galera. Até tentei contrapôr, que não importava o que os outros pensassem, mas não fui muito longe. Eu sabia por quem eu tinha ereções e isso me bastava. Era mais fácil arrumar uns amigos novos do que mudar a cabeça homofóbica de alguém.

Eu poderia dizer que sei como é ser gay, mas seria uma heresia hedionda. Eu não sei como eles se sentem, não tenho ideia. O descobrimento, a negação, a transformação, a aceitação, a admissão? Nem imagino. Sei como é achar um homem atraente e bonito (Todos os homens sabem como é, embora não confessem. David Beckham, hein?), mas não faço ideia de como é ter atração física pelo mesmo sexo. Nunca tive contato com a dor e aflição de um menino que não se sente assim tão viril quanto o pai, a escola, a turma da natação, os garotos da rua, tios, etc, esperam que ele seja. Eu não sei como é, você não sabe como é. Só eles sabem. Não deve ser fácil.

Mas mesmo assim a gente cochicha, aponta, ri, debate, milita, rejeita, fala, debocha, argumenta, conta piadas a respeito, opina sobre o casamento gay, a lei anti-homofobia, adia o beijo homossexual na novela. Por que todos os dias falamos sobre coisas que não temos noção de como é? Porque precisamos da ilusão de que somos melhores e superiores, seja por “saber como é” e falsamente compreender, ou seja por negação, rejeição, preconceito.

A verdade é que sofremos um pavor irracional em relação a tudo que não nos diz respeito, não aceitamos que as coisas possam existir e funcionar sem nosso aval e entendimento, o que nos leva a outra ilusão necessária: a de que estamos no controle, de que o mundo pertence a nós e logo somos o centro dele, e tudo que sucede em volta é mera paisagem e figuração.

Existem as coisas que você sabe. Que não representam uma ínfima fração de todo o resto que você não sabe. Deus nos abandonou com as dúvidas e fugiu com todas as verdades absolutas.

*
Ps. O Felipe de hoje não é homossexual, até onde me foi noticiado. Só está preso por tráfico de drogas.



Gabito Nunes   http://www.gabitonunes.com.br

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Como se você nunca fosse me ver novamente.

Então toda vez que você me abraçar
Me abrace como se fosse a última vez
Toda vez que você me beijar
Me beije como se você nunca fosse me ver novamente
Toda vez que você toca em mim
Toque como se fosse a última vez
Prometa que vai me amar
Amar como se você nunca fosse me ver novamente.
(Alicia Keys)

Skins

" A pior coisa do mundo é quando alguém faz você se sentir especial, e de repente, te deixa de lado. E aí você tem que agir como se não se importasse" - skins

Admiráveis

O inferno por dentro

Você é aquele tipo de pessoa inconfiável, seus movimentos são joguinhos manipuladores, seus discursos nem se fala. Já faz tempo que parei de guiar minha vida com suas frases de parachoque de caminhão. Fui embora. Agora de uma vez. Sem volta e sem conversa. Voltei para a casa dos meus pais, mas não por muito tempo. Meu antigo quarto virou uma sala de cinema. Talvez eu volte pra Lisboa. Aliás, não te interessa. Não estou dizendo isso porque no fundo te quero ralando joelho pelas ruas atrás de mim. Não dessa vez. Não vem com bombons, não vem com desculpas, não vem com canções. Não vem. Se você tiver a fim de compreender o presente, precisa analisar o passado. Todo ele, dia a dia, cada palavra, seu borderô de atitudes passadas. Dá uma olhada em tudo que você fez e me diz. Viu? A novidade é que o dia que eu sempre prometi que viria, e que você nunca esperou chegar de verdade, veio. Eu cansei. Não sou mais eu


continua...

Quero você.

"E eu quero que você venha cuidar de mim. Quero acordar e assim que abrir os olhos, ver você. Perceber o quanto sou feliz por ter você. Quero que me beije devagar, me segurando com força, e dizendo que ficaria assim até não poder mais. Quero uma vida leve e serena com você. Uma casa só nossa, um filme no frio, e até um cachorro. Quero que você me faça a pessoa mais feliz do mundo, pois eu também te farei se sentir do mesmo jeito. Quero bagunça na cozinha, a gente tentando preparar alguma coisa, e acabando no chão. Quero você, as coisas simples. Então fica. Quero viver esse amor, quero viver nessa vida... com você" 
Casal apaixonado no dia dos namorados

O inferno por dentro 3 (continuação)

Só que você sempre dá um jeito de se safar. Ficar seria tolerar suas mancadas. Você precisa perder pra entender onde errou, que isso que você faz é um erro, um dos feios. Que evitar e não tocar mais no assunto não é perdão ou esquecimento. É sufocar. E eu estava sufocando, morrendo na praia em frente ao mar de rosas que você anunciou, cheia de pétalas grudadas no céu da boca, entupindo os bofes, sem ar, uma vontade constante de regurgitar de volta suas garantias de araque. Partes de mim querem ir embora, partes de mim querem ficar. Ainda não terminei de gostar de você. Mas consegui. Agora fui. Porque comecei isso querendo ser sua companheira, passei a cúmplice das suas maldades, e ficar dessa vez vai me fazer sua comparsa. Não é um ‘até amanhã’ nem ‘até breve’ e nem ‘até mais’. É um ‘até você mudar’ ou ‘até você não ser mais quem você é’. Até nunca, então.